Chamada de artigos O materialismo na Teoría Crítica: Genealogia, problemas, atualidade
No início de 1936, Herbert Marcuse e Max Horkheimer preparavam uma antologia com o objetivo de reunir as principais doutrinas materialistas da filosofia ocidental desde a Antiguidade até o final do século XIX, prestando atenção àquelas correntes relegadas pela historiografia filosófica tradicional. Segundo Marcuse, o volume deveria incluir seções dedicadas ao “sofrimento e à miséria na história, à falta de sentido do mundo, à injustiça e à opressão, à crítica da religião e à moral, à conexão entre teoria e prática histórica e à exigência de uma organização melhor da sociedade”. Embora a obra nunca tenha sido publicada, ela constitui um testemunho privilegiado do lugar que o materialismo ocupava no programa intelectual do Instituto de Investigação Social.
Desde seus primeiros trabalhos, a Teoria Crítica fez do materialismo um dos pilares fundamentais de seu projeto filosófico. Já nas proposições programáticas do Instituto, sob a direção de Horkheimer, a orientação materialista definia o próprio sentido da investigação interdisciplinar, na medida em que esta aspirava a interpretar os fenômenos culturais, políticos e sociais a partir de suas mediações históricas. Desse modo, o materialismo deixava de designar uma doutrina filosófica ou uma cosmovisão para se converter na pedra de toque para abordar, em sua especificidade histórica, as relações sociais, as formas de dominação e as possibilidades de emancipação. Desde os escritos de Horkheimer e Marcuse nos anos trinta até a insistência de Adorno na primazia do objeto ou suas críticas à fenomenologia e à ontologia heideggeriana, passando pelas reflexões de Benjamin sobre a história, a antropologia e a arte, as contribuições da Teoria Crítica estão atravessadas por um interesse evidente em desenvolver um pensamento materialista capaz de chegar às últimas consequências. No entanto, esse materialismo não se identifica sem mais com nenhuma das formulações históricas que receberam tal nome. Ao contrário, o materialismo é entendido como uma tarefa filosófica permanente. Levá-la à cabo requer uma crítica imanente do idealismo no qual, segundo seu julgamento, persistiam grande parte das posições teóricas de sua época, mas também requer a confrontação com aquelas concepções de materialismo que – embora se reivindiquem como tal – permanecem vinculadas a pressupostos metafísicos ou reproduzem formas de imediaticidade incompatíveis com uma compreensão crítica da realidade social.
Nas suas lições de Terminologia filosófica, Adorno observa que, sob o nome de materialismo, se agrupam posições tão diversas como o atomismo antigo, o pensamento científico moderno ou o materialismo de Marx. Ainda que todas elas compartilhem um certo “aroma materialista”, uma “coloração específica”, o materialismo não remete à afirmação dogmática da matéria como uma invariante metafisica, nem a apresentação do mundo externo como um dado rígido e imutável, e, sim, a certa atitude crítica frente a toda reconciliação com o mundo existente. Na Teoria Crítica, essa atitude se concretiza na primazia do concreto e do objeto e no reconhecimento da natureza necessitada no sujeito: o materialismo não é filosofia da origem, mas autoconsciência da dialética negativa, da não identidade entre a humanidade e a matéria da natureza. Ele aponta, portanto, à tarefa de quebrar a “coação cega das condições materiais sobre as pessoas” e é inseparável de uma práxis transformadora. Em sua reformulação, a apropriação crítica do marxismo desempenhou um papel decisivo, bem como a incorporação da psicanálise – particularmente da metapsicologia freudiana –, que permitiu ampliar a compreensão materialista da constituição do sujeito, do desejo e dos mecanismos de dominação.
O propósito deste dossiê é abordar o papel constitutivo do materialismo no projeto coletivo da Teoria Crítica e analisar as diversas formas por ele assumidas em seus principais autores. Mais que estudar as relações externas entre a Teoria Crítica e outras correntes materialistas, interessa examinar a originalidade de seu conceito de materialismo e as consequências que essa reformulação tem para a teoria do conhecimento, a crítica social, a compreensão do sofrimento, a relação entre teoria e práxis e as possibilidades de emancipação nas sociedades contemporâneas. O objetivo é abrir um espaço de discussão sobre um dos conceitos fundamentais do projeto crítico, cuja atualidade segue oferecendo ferramentas indispensáveis para compreender as formas vigentes de dominação e as possibilidades de transformação social. Assim, será dada atenção à reconstrução de suas genealogias conceituais, às tensões que atravessam a relação com o materialismo marxista ou com propostas materialistas atuais e às consequências que essa compreensão tem para as formas de conhecimento, a relação com práxis ou as próprias formas de produção teórica.
- O conceito de materialismo na Teoria Crítica e suas genealogias.
- As formulações do materialismo nos autores da Teoria Crítica: Adorno, Horkheimer, Marcuse, Benjamin...
- O materialismo da Teoria Crítica como crítica imanente do idealismo.
- A relação crítica com Marx e com a tradição do materialismo.
- Primazia do objeto: para uma epistemologia materialista.
- Teoria Crítica, materialismo e o conceito de história.
- “Lembrança da natureza no sujeito”: materialidade e corporalidade.
- Materialismo e psicanálise: teoria da libido, constituição do sujeito e crítica social.
- “O sofrimento é físico”. A Teria Crítica e a análise das formas de compreensão do sofrimento social.
- O lugar do prazer no materialismo da Teoria Crítica: de “Para a crítica do hedonismo” até “Egoísmo e movimentos de libertação”.
- A atualidade do materialismo na Teoria Crítica.
- Materialismo, negatividade e dialética.
- Materialismo e práxis transformadora.
- Desenvolvimentos posteriores do materialismo na Teoria Crítica.
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Data de publicação: dezembro de 2027.